
Camilo Pessanha nasceu em Coimbra a 7 de Agosto de 1867, licenciou-se em Direito no ano de 1891 na Universidade da sua terra natal e deixou a magistratura três anos depois para ser professor liceal em Macau, actividade que trocou pelo cargo de conservador em 1900 e, mais tarde, de juiz.
O Oriente fascinou-o, presenteou-o com amores exóticos e com a amizade de Wenceslau de Morais.
Publicou poesia e alguma prosa em jornais e revistas durante a sua vida académica.
Os seus poemas, dispersos em papeis soltos, que oferecia, rasgava e sabia de cor, foram recuperados pelo seu amigo João de Castro Osório, filho da sua grande amiga Ana de Castro Osório, e editados no seu único livro, Clepsidra, 1920 - ampliado em edições posteriores -, destacada marca do simbolismo português.
A sua obra mereceu o apreço de Fernando Pessoa, quer conheceu, e de Mário de Sá Carneiro, influenciou a geração de Orpheu e foi cantada por: José Régio, Eugénio de Andrade e David Mourão-Ferreira.
Morreu em Macau na sua casa da Praia Grande no dia 1 de Março de 1926 – dia do aniversário do seu amigo Alberto Osório de Castro.
Para “celebrar” os cento e quarenta e um anos do seu nascimento, escolhi esta carta endereçada a Alberto Osório de Castro*:
“Agosto de 1891
Meu Caro Alberto Osório
Escrevo-lhe por causa do livro do Navarro, a dizer que vim de Coimbra sem me despedir do Jardim, e agora ele já embarcou para Timor. (…)
Com uma impertinência que é quase obsessão, mortifica-me em redor dos ouvidos um verso único do João Jardim, coitado do João Jardim: “Branco de cal, parede branca.” Parece que não devia ser, porque isto é o degredo das Pedras Negras.
Não sorria de eu intercalar um verso, embora de significação tão meramente subjectiva, na minha prosa, que vai descrevendo a sua órbita estilo A.A. da Fonseca Pinto. Se acreditar que já matei uma charada na Gazeta de Portugal! Donde concluo que estou na conta para o Ultramar: em Luanda, por exemplo, toda a gente mata charadas. Além de que para o concurso não exigem os seis meses de subdelegado.(…)
Li na Revista bibliográfica de O Século (Gomes Leal) que recebera composições poéticas de João José Jara!? E Alberto Bramão!?!, etc., e Alberto Osório de Castro. Mande-me também uma composição poética.
Adeus. (…) Onde parará o Lomelino?
O nosso condiscípulo Dr. Pinto de Rego-Travesso, dizem-me que andou um dia destes na romaria da Senhora das Febres, desfilando a sua pompa de bacharel que sabe quanto pesa, com um chapéu alto em cima. E com certeza inveja isto que me rói os fígados.
Recomende-me à Sr.ª D. Catarina e dê um beijo à Zizi
deste
Tio Camilo Pessanha”
*Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), juiz, escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro.