Murilo Mendes - O Namorado e o Tempo

Agosto 18, 2008 - No Responses

O namorado contempla
O corpo da namorada.
Vê o corpo como está,
Não vê como o corpo foi
Nem como o corpo será.

Se aquele corpo amanhã
Mudar de peso, de forma,
Mudar de ritmo e de cor,
O namorado, infeliz,
Vai sofrer mesmo demais:
Não calculou o futuro,
A mulher quebrou o encanto,
Ele só vê a mulher
No momento em que a vê.

Murilo Mendes
(Juiz de Fora, 15/5/1901 - Lisboa, 13/8/1975)

M.ª da Saudade Cortesão - O Tempo Passado

Agosto 18, 2008 - No Responses

Houve tempos
Em que a mão erguia uma lanterna
E a noite se afastava um pouco, devagar.
Não se anulava.
A noite e o dia abriam sulcos para o silêncio como um rio
E a nosso lado caminhava sempre um espaço aberto.

Eu não recordo mas dizem
Que partíamos e voltávamos à casa
Como o sangue parte e volta ao coração.
Mar não havia
Mas pisávamos violetas.

(…)

Nossos corpos então eram como jacintos
Vindos da terra lenta,
Lentos sob o abraço do linho.
O amor era tão longo -
Tão curto o desvario.
Ah dêem-nos de novo
Aqueles corpos ignorantes e densos
E ouvidos para o silêncio
E boca para acreditar.

M.ª da Saudade Cortesão
(Porto, 1938)

Jaime Cortesão - Canção Violeta

Agosto 18, 2008 - No Responses

Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.

Roxas alastram os razes.
E tu dás-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.

Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.

E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.

Jaime Cortesão - Médico, político, escritor e historiador.
(Ançã, Cantanhede, 29/4/1884 - Lisboa, 14/8/1960)

Miguel Torga - Aniversário

Agosto 13, 2008 - No Responses

Se a condição física o permitisse, Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, médico, colaborador da Presença, fundador das revistas Sinal e Manifesto, escritor reconhecido mundialmente, justamente distinguido com prémios nacionais e internacionais, teria completado cento e um anos ontem.

Para comemorar o seu aniversário, escolhi estes excertos do seu Diário, Volumes I e IV:

“Termas de S. Vicente, 12 de Agosto de 1938- Estas romarias de Portugal! E eu que faço hoje trinta e um anos! Porque no fundo tenho passado a vida a arranjar coragem para me atirar a um baile destes e suar duma vez o lirismo que me envenena. Mas completo hoje trinta e um anos. Agora, só mesmo fazendo um filho depressa e delegando nele.”

“Lavadores, 12 de Agosto de 1946 - Trinta e nove anos. Meia vida passada (…). E tudo por fazer!

Comecei tarde, sem nenhuma preparação, e com defeitos horríveis, que tenho ido limando pouco a pouco, mas que resistem como fortalezas. Nasci afirmativo de mais, puritano de mais, uno de mais, apesar duma timidez confrangedora, duma aceitação natural da volúpia e duma disperrsão aflitiva a cada instante.

Tenho medo de um polícia e sou capaz de enfrentar um exército;
passo a vida a praticar virtudes que proíbo terminantemente aos outros; escrevo um poema, a dar consulta. De maneira que nunca consegui encontrar aquele equilíbrio criador onde julgo existir o pomar das grandes obras.

Debato-me entre forças contraditórias, e ao cabo de cada livro sinto-me insatisfeito e culpado como um pecador que não cumpriu bem a sua penitência. Não tenho ambições fora da arte, e, dentro dela, só desejo conquistsar a glória de a ter servido humilde e totalmente; mas não consegui ainda dar-lhe tudo, jogar a vida e a morte por ela. Para isso era preciso calcar aos pés o homem civil que sou, e não posso. Necessito de ter as minhas contas em dia como qualquer mortal honrado, e afligem-me os assuntos do mundo como casos pessoais.

Também tenho afectos. E o trama de deveres e apegos (…) . Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles.

A minha grande alegria é admirar os outros, e procuro encontrar em cada um as linhas positivas do seu caminho. Afinal somo todos elos de uma grande corrente, e é pelos ferrujentos que ela pode quebrar. (…)

E tudo por fazer!

Mas quê! Quando devia estar a ler os clássicos, andava a capinar café; quando me apetece escrever,estou a curar anginas; e quando é preciso salvar o artista, ponho-me a salvar o homem.”

Miguel Torga
(São Martinho de Anta, Vila Real, 12 /8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)

Luís Amaro - Retrato

Agosto 10, 2008 - No Responses

Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve…

Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.

Existias em mim… O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!

Luís Amaro - poeta e bibliógrafo
(Aljustrel, 1823)

Camilo Pessanha - Aniversário (7 de Agosto)

Agosto 8, 2008 - No Responses

Camilo Pessanha nasceu em Coimbra a 7 de Agosto de 1867, licenciou-se em Direito no ano de 1891 na Universidade da sua terra natal e deixou a magistratura três anos depois para ser professor liceal em Macau, actividade que trocou pelo cargo de conservador em 1900 e, mais tarde, de juiz.

O Oriente fascinou-o, presenteou-o com amores exóticos e com a amizade de Wenceslau de Morais.

Publicou poesia e alguma prosa em jornais e revistas durante a sua vida académica.

Os seus poemas, dispersos em papeis soltos, que oferecia, rasgava e sabia de cor, foram recuperados pelo seu amigo João de Castro Osório, filho da sua grande amiga Ana de Castro Osório, e editados no seu único livro, Clepsidra, 1920 - ampliado em edições posteriores -, destacada marca do simbolismo português.

A sua obra mereceu o apreço de Fernando Pessoa, quer conheceu, e de Mário de Sá Carneiro, influenciou a geração de Orpheu e foi cantada por: José Régio, Eugénio de Andrade e David Mourão-Ferreira.

Morreu em Macau na sua casa da Praia Grande no dia 1 de Março de 1926 – dia do aniversário do seu amigo Alberto Osório de Castro.

Para “celebrar” os cento e quarenta e um anos do seu nascimento, escolhi esta carta endereçada a Alberto Osório de Castro*:

“Agosto de 1891

Meu Caro Alberto Osório

Escrevo-lhe por causa do livro do Navarro, a dizer que vim de Coimbra sem me despedir do Jardim, e agora ele já embarcou para Timor. (…)

Com uma impertinência que é quase obsessão, mortifica-me em redor dos ouvidos um verso único do João Jardim, coitado do João Jardim: “Branco de cal, parede branca.” Parece que não devia ser, porque isto é o degredo das Pedras Negras.

Não sorria de eu intercalar um verso, embora de significação tão meramente subjectiva, na minha prosa, que vai descrevendo a sua órbita estilo A.A. da Fonseca Pinto. Se acreditar que já matei uma charada na Gazeta de Portugal! Donde concluo que estou na conta para o Ultramar: em Luanda, por exemplo, toda a gente mata charadas. Além de que para o concurso não exigem os seis meses de subdelegado.(…)

Li na Revista bibliográfica de O Século (Gomes Leal) que recebera composições poéticas de João José Jara!? E Alberto Bramão!?!, etc., e Alberto Osório de Castro. Mande-me também uma composição poética.

Adeus. (…) Onde parará o Lomelino?

O nosso condiscípulo Dr. Pinto de Rego-Travesso, dizem-me que andou um dia destes na romaria da Senhora das Febres, desfilando a sua pompa de bacharel que sabe quanto pesa, com um chapéu alto em cima. E com certeza inveja isto que me rói os fígados.

Recomende-me à Sr.ª D. Catarina e dê um beijo à Zizi

deste

Tio Camilo Pessanha

*Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), juiz, escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro.

Ramalho Ortigão - As Praias

Agosto 7, 2008 - No Responses

“As praias de banhos são um divertimento de Verão. A questão hidroterápica é por via de regra um simples pretexto para a peregrinação das famílais alegres em sítios frescos.

O campo e a praia, o ar do monte e o ar do mar são efectivamente a universal panaceia para as moléstias endémicas das grandes cidades, para as nevroses dos excitados de todas as espécies, para as anemias dos fatigados de toda a ordem, para os doentes de todos os abusos do trabalho ou do prazer.

As influências da civilização na saúde, a excessiva ginástica intelectual, a superabundância das emoções afectivas e das comoções físicas, as irregularidades da alimentação, as vigílias, as noitadas, as insónias, o ar viciado (…) as absorventes preocupações do estudo, do dinheiro, da ambição, da glóra, do amor (…) tudo isso junto, digo, desfibra lentamente, morde e corrói os alicerces do organismo humano, depaupera-o a pouco e pouco, desequilibra-o, degenera-o.

Nuns fica predominantemente a excitabilidade, e são os nevróticos; noutros o abatimento, e são os enervados. Os da primeira categoria, os convulsos, os agitados, os febricitantes, os cardíacos, os musculosos, os sanguíneos, vão acalmar-se nas montanhas. Os da segunda categoria, os prostrados, os displicentes, os anémicos, os moles, os melancólicos, os linfáticos, vão refazer-se à beira-mar. (…)”

Ramalho Ortigão
(Porto, 24/10/1836 - Lisboa, 27/9/1915)

António Sérgio - A Crítica

Agosto 7, 2008 - No Responses

“Não confudamos. Um eclipse do Sol é uma escuridão; mas a teoria dos eclipses é uma doutrina clara. A crítica não é lirismo, como a teoria dos eclipses não é um eclipse; e se o poeta portanto pode ser obscuro, o crítico da poesia tem de ser claríssimo.”

António Sérgio
(Damão, 3/9/1883 - Lisboa, 24/1/1969)

António Feliciano de Castilho - A Biblioteca

Agosto 7, 2008 - No Responses

“Não é verdade que um triste e piedoso sentimento se apodera da alma em entrando por uma vasta biblioteca? Não há no silêncio desas abóbadas um mudo e frio pregão de desenganos? E não sai daquelas apinhadas fileiras de doirados nomes de varões, outrora tamanhos e tão célebres, coisa que assemelhe ao efeito dos epitáfios?

Por toda a parte os restos e as ruínas dos que nos precederam: além, os corpos; aqui, os pensamentos; mas uns e outros desamparados de vida, e condenados ao progresso inevitável da destruição. [...]

A biblioteca para vós não é somente, como a pirâmide no meio de um deserto, morada silenciosa de múmias embalsamadas e coroadas, é uma catacumba sacrossanta, onde se contêm os despojos de muitos martirizados; porque vós sabeis que imensa quantidade de aflições deveu ser necessário, para se chegar a escrever (…)

E, entretanto, … há ainda quem inveje como privilégio a faculdade de criar tais coisas!, quem a tais versos chame felizes, e se extasie em tais melancolias!”

António Feliciano de Castilho
(Lisboa, 28/1/1800 - Lisboa, 18/6/1875)

Estar Sentado à Mesa e na Mesa

Agosto 6, 2008 - No Responses

Conversa de Vogais e Outras Mais

- Boa noite, Menina m! Pode dar-me uma explicaçãozinha, se faz favor?

- Boa noite, Zé-concertina! Então qual é a sua dúvida?

- Ó Menina, vinha ali da tasquinha do meu amigo a pensar que sentei-me no banco e que o “´ti” Luís sentou-me ao meu lado e o Janota ao pé dele, mas estávamso sentados à mesa ou na mesa?

- Zé-concertina, não estavam sentados sobre a mesa, pois não?

- Claro que não, Menina, estávamos sentados nos bancos!

- Nesse caso, e tal como percebi, estavam sentados à mesa, isto é, junto à mesa, não é verdade?

- É sim, Menina m! Então estar sentado na mesa quer dizer em cima da mesa?

- Exactamente, Zé-concertina! Mas é frequente ouvir-se, por exemplo,: “vou sentar-me na mesa dos meus colegas”. Parece-lhe bem?

- “Agora cá”! Quem é que vai sentar-se em cima da mesa dos colegas, dos vizinhos ou dos amigos?!… Só se fosse para estragar alguma festa ou “armar zaragata”.

- Está certo, Zé-concertina! A frase correcta seria…

- …”Vou sentar-me à mesa dos meus colegas!”

- Muito bem, Zé-concertina! Tenho de despedir-me, porque preciso de descansar! Boa noite!

- Boa noite, Menina, e muito obrigado!